Pantanal em chamas: o que os incêndios de 2026 revelam sobre a crise climática brasileira
Ilustração: Voz Aberta
As imagens chegaram nas redes sociais antes de chegar nos noticiários: céu alaranjado sobre o Pantanal, fumaça visível do espaço, animais fugindo das chamas em cenas que pareciam saídas de um filme catástrofe. Mas não eram ficção. Em maio de 2026, o maior bioma alagável do mundo registrou o pior início de temporada de incêndios em dez anos.
Os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) são alarmantes: mais de 180 mil hectares queimados só em maio, um aumento de 340% em relação ao mesmo período de 2025. Para ter uma referência: isso equivale a mais de duas vezes o território do município de São Paulo.
A seca que não era surpresa
O Pantanal tem uma dinâmica natural de cheias e secas. Mas o que aconteceu em 2026 não é simplesmente um ciclo natural — é um ciclo natural amplificado por mudanças climáticas e por decisões humanas que tornaram o sistema mais vulnerável.
A seca de 2026 foi prevista com meses de antecedência pelos modelos climáticos. O Inmet alertou em fevereiro para a probabilidade de precipitação abaixo da média no Centro-Oeste e no Pantanal. A pergunta que fica é: o que foi feito com essa informação? Quais medidas preventivas foram tomadas? A resposta, segundo pesquisadores e ambientalistas ouvidos para esta reportagem, é: pouco.
"Temos ciência de primeira linha para prever o que vai acontecer. O que falta é vontade política para agir antes que a tragédia aconteça." — pesquisador do Inpe
O papel do agronegócio
Seria simplista culpar apenas as mudanças climáticas. A expansão da fronteira agrícola nas bordas do Pantanal — especialmente a soja e a pecuária — aumentou a pressão sobre o bioma e reduziu a capacidade de resiliência do sistema. Quando a vegetação nativa é substituída por pastagem ou lavoura, o solo perde a capacidade de reter água, os cursos d'água são alterados e o risco de incêndio aumenta.
Isso não significa que o agronegócio seja o único vilão da história. Há produtores rurais que adotam práticas sustentáveis e que também perderam propriedades e animais nos incêndios. Mas o padrão de ocupação do território — incentivado por décadas de políticas públicas que priorizaram a produção em detrimento da conservação — criou as condições para a crise atual.
Fiscalização: quem está de olho?
O Ibama e o ICMBio têm competência para fiscalizar e combater incêndios em áreas protegidas. Mas os dois órgãos sofreram cortes significativos de orçamento e de pessoal nos últimos anos. Em 2026, o Ibama tinha cerca de 40% menos servidores do que em 2010, segundo dados do próprio órgão.
A brigada de incêndio do Pantanal — formada por brigadistas treinados especificamente para combater fogo no bioma — foi desmobilizada em 2019 e só parcialmente reconstituída desde então. Quando os incêndios explodiram em maio, a capacidade de resposta era insuficiente para a dimensão do problema.
O que o Pantanal significa para o Brasil
O Pantanal não é apenas um bioma de valor ecológico incalculável — embora seja isso também. É uma fonte de água para regiões inteiras, um regulador climático, um patrimônio cultural e turístico, um lar para espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo. Quando o Pantanal arde, o Brasil perde algo que não tem preço e que não pode ser recuperado em anos ou décadas.
A crise de 2026 é um aviso. A questão é se o Brasil vai ouvi-lo desta vez.